Há algo triste em Aftersun
- JORGE MARIN
- 24 de mar. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de fev.
Há algo triste e perturbador em Aftersun, o singelo filme de estreIa de Charlotte Wells. Mas a presença de uma filmadora de vídeo e a ausência de telefones celulares indicam que a história ocorre no passado, e é um registro feito por um pai e uma filha, passando férias na Turquia. No início, a garota Sophie (Frank Corio) diz que acabou de completar 11 anos e seu pai fará, daí a dois dias, “131”.
Percebemos, pelas imagens embaralhadas, que alguém está rebobinando a fita de videocassete, desde a despedida dos dois, que ocorre evidentemente no final do filme, até o princípio. É um momento extremamente feliz entre o jovem pai, Calum (Paul Mescal), que não vive mais com Sophie, e sua mãe.
Então, de onde vem toda a tristeza que o filme nos passa? Não há como dar spoiler simplesmente porque não há motivo aparente para isso. Os dias se sucedem entre preguiçosos repousos à beira da piscina (sem descuidar do protetor solar), mergulhos de snorkel e jantares com direito a músicas antigas. A única moderna (para a época do filme) é Losing My Religion, cantada por Sophie em um karaokê.
Chateada porque seu pai recusou-se a cantar com ela, Sophie não volta com ele para o hotel e passa o resto da noite com um bando de adolescentes ingleses e termina com um coleguinha de sua idade, com quem normalmente joga arcade. Sozinho, Calum caminha em direção às ondas.
Última dança
Pensamos que algo grave pode ocorrer nessa noite. Sophie, à beira da adolescência, se acha adulta e independente. Calum, que se confessa surpreso por ter chegado aos 30 anos, em um conversa com um instrutor de mergulho, transpira calma, mas pratica Tai Chi Chuan (uma técnica chinesa para aliviar o estresse) e lê livros de autoajuda.
Frequentemente assistimos a cenas em um rave com luz estroboscóbica onde uma mulher (que depois identificamos como a Sophie adulta, interpretada por Celia Rowlson-Hall) tenta abraçar Calum no escuro, mas ele foge.
Não por acaso, na cena final da viagem, Calum é quem convence Sophie a dançar com ele a música Under Pressure, com destaque para os versos onde David Bowie e Fred Mercury repetem: “Esta é nossa última dança”.

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